O futuro dos consoles pode depender muito mais da inovação do que de melhorias gráficas. Essa é a opinião de dois veteranos da indústria: Shawn Layden, ex-presidente da Sony Interactive Entertainment America, e Peter Moore, ex-presidente da SEGA of America e ex-vice-presidente da divisão de games da Microsoft.
Em entrevista ao portal Kotaku, ambos analisaram os desafios enfrentados pela indústria diante do aumento dos custos de produção dos consoles, impulsionado principalmente pela crescente demanda por chips utilizados em inteligência artificial. Segundo Moore, a situação elevou o valor desses componentes a níveis sem precedentes.
“Os chips agora são praticamente inestimáveis. Eles viraram verdadeiras joias”, afirmou.
Embora tenham visões diferentes sobre como resolver esse problema, os dois concordam que a próxima geração precisará oferecer muito mais do que ganhos incrementais de desempenho para convencer os consumidores a investir em um novo hardware.
Shawn Layden teme a chegada de consoles de US$ 1.000
Para Shawn Layden, o maior risco é que os consoles se tornem caros demais para o público. Segundo ele, um aparelho custando cerca de US$ 1.000 poderia reduzir drasticamente a adoção de uma nova geração.
O ex-executivo relembrou que, durante muitos anos, o mercado considerava US$ 399 como um preço ideal para um console. Porém, com os custos de fabricação aumentando e os avanços tecnológicos se tornando cada vez menores entre gerações, justificar um novo investimento ficou mais difícil.
Layden questiona até que ponto melhorias técnicas continuam sendo suficientes para convencer o consumidor.
“Quanto mais ray tracing é realmente possível adicionar? E será que nossos olhos conseguem perceber diferença jogando a 120 quadros por segundo?”, comentou.
Na visão dele, se um futuro PlayStation 6 oferecer apenas melhorias visuais discretas em relação ao PS5, isso dificilmente justificará um preço muito mais elevado.
A criatividade dos jogos pode ser a verdadeira inovação
Layden acredita que a solução não está necessariamente no hardware, mas sim nos próprios jogos.
Segundo ele, a indústria está concentrando esforços em poucos gêneros populares, como jogos de tiro, mundos pós-apocalípticos e fantasias medievais, deixando de explorar experiências capazes de atrair novos públicos.
Para o ex-presidente da PlayStation, continuar produzindo apenas franquias consagradas pode manter a base atual de jogadores, mas não expandirá o mercado.
Ele também destacou que a redução da mídia física dificulta a descoberta de novos títulos, já que experiências como receber recomendações em lojas especializadas praticamente desapareceram.
Para Layden, ampliar a diversidade de jogos e incentivar desenvolvedores de diferentes regiões do mundo pode ser uma das formas mais eficazes de tornar os consoles novamente atrativos.
Peter Moore acredita que o modelo de negócios precisa mudar
Peter Moore enxerga o problema por outro ângulo.
Segundo ele, fabricantes como Sony e Microsoft tradicionalmente lucram pouco — ou até perdem dinheiro — na venda do hardware, recuperando esse investimento posteriormente com jogos, assinaturas e serviços.
Por isso, Moore acredita que novas estratégias comerciais podem ganhar força, como consoles subsidiados em troca de contratos de longo prazo com serviços de assinatura, semelhante ao que a SEGA tentou fazer no passado com o Dreamcast e o SegaNet.
Na visão dele, o aumento dos custos de fabricação pode obrigar as empresas a repensarem completamente a forma como vendem seus consoles.
O futuro pode estar além do console tradicional
Moore também acredita que a indústria caminha, cada vez mais, para um modelo baseado em streaming.
Segundo ele, conforme a infraestrutura evoluir e a latência diminuir, os consoles poderão deixar de ser necessários, sendo substituídos por aplicativos integrados diretamente às TVs.
Nesse cenário, bastaria acessar uma biblioteca de jogos na nuvem e iniciar a partida utilizando apenas um controle compatível.
Caso essa transição não aconteça a tempo, Moore acredita que os próprios consumidores encontrarão alternativas.
“Se um console custar US$ 800 ou mais, muita gente simplesmente migrará para o PC, conectará o computador à televisão e continuará jogando dessa forma”, afirmou.
Próxima geração será decisiva
Apesar de abordarem soluções diferentes, Shawn Layden e Peter Moore compartilham a mesma preocupação: a próxima geração poderá definir o futuro dos consoles tradicionais.
Com custos de produção cada vez maiores, avanços tecnológicos menos perceptíveis e consumidores mais sensíveis aos preços, fabricantes como Sony e Microsoft precisarão encontrar novas formas de demonstrar valor para justificar o investimento em uma nova geração de hardware. Caso contrário, alternativas como PCs e jogos em nuvem poderão ganhar ainda mais espaço nos próximos anos.
Fonte: Kotaku
