Marvel Tōkon: Fighting Souls é um Daqueles lançamentos que chegam cercados de expectativa, especialmente pela responsabilidade de carregar duas marcas gigantescas: o universo da Marvel e a assinatura inconfundível da Arc System Works no desenvolvimento de jogos de luta. A promessa era entregar um combate dinâmico, acessível e visualmente impressionante. No entanto, o resultado final entrega uma experiência de altos e baixos, em que momentos de puro brilho técnico e diversão são contrabalançados por decisões narrativas duvidosas e tropeços técnicos incômodos.

O Primeiro Impacto Visual
O primeiro contato com o jogo é extremamente impactante. A escolha estética salta aos olhos imediatamente ao fundir o traço característico dos quadrinhos ocidentais com a linguagem visual de animes e mangás orientais. Os modelos dos personagens passam uma sensação imediata de imponência, com traços fortes, musculatura bem definida e uma construção de cena refinada. As transições entre os menus e as ilustrações que simulam páginas e painéis de HQs dão um charme especial à apresentação. A sensação inicial é a de estar diante de uma obra com personalidade própria, que respeita o material de origem ao mesmo tempo em que imprime o DNA estilizado do estúdio.

Uma Narrativa que Cumpre Tabela
Infelizmente, a empolgação inicial perde força quando avançamos para o modo campanha. O modo história é, sem dúvidas, o ponto mais fraco de toda a experiência. O jogo oferece cinco campanhas focadas em diferentes grupos de heróis e vilões, o que à primeira vista parece uma boa oferta de conteúdo. O problema reside no fato de que todas as rotas seguem exatamente a mesma premissa narrativa e o mesmo desfecho, mudando apenas as linhas de diálogo e as interações pontuais entre os membros do grupo escolhido. A luta final contra o vilão conhecido como Campeão (The Champion) repete-se de forma exaustiva.

Essa estrutura gera uma sensação incômoda de repetição em pouco tempo. A sensação que fica é de que o jogo se beneficiaria muito mais se tivesse adotado o formato de campanha por capítulos focados em personagens individuais, consagrado nos títulos recentes de Mortal Kombat, ou até mesmo uma estrutura de exploração e aprendizado progressivo nos moldes do World Tour de Street Fighter 6. Da forma como foi entregue, o modo história parece genérico e cumpre tabela, falhando em engajar quem busca uma narrativa solo minimamente elaborada.
Onde o Jogo Realmente Brilha
No que diz respeito à jogabilidade, o jogo acerta em cheio e mostra onde reside a sua verdadeira força. O combate foca no formato de duplas expansível para confrontos em equipe de até quatro contra quatro, trazendo uma dinâmica ágil e revigorante para o gênero. A decisão de adotar uma barra de vida compartilhada para toda a equipe, aliada à ausência de regeneração passiva para os reserva, transforma a gestão do time em uma decisão estratégica constante. Não basta apenas escolher lutadores fortes; é preciso saber quando intercalar as assistências e trocar de personagem para não expor a equipe a um dano devastador.

Outro acerto louvável é a curva de aprendizado. O título é didático e convidativo. Em poucas horas de prática já é possível compreender as mecânicas fundamentais, executar combinações eficientes e ter um controle muito mais fluido da partida do que o visto em outros jogos de luta mais punitivos. Há uma clara inspiração e reaproveitamento de mecânicas consagradas de franquias como Guilty Gear, Dragon Ball FighterZ e dos clássicos Marvel vs. Capcom, o que gera uma sensação imediata de familiaridade para quem já conhece o trabalho da desenvolvedora.
Para sustentar essa estrutura, a oferta de modos de jogo é honesta. O ecossistema online oferece salas públicas para até 64 jogadores, partidas casuais, modo ranqueado e suporte a jogo cruzado (crossplay). Para o jogo offline, temos um modo de treino completo, guias de personagens, partidas contra a inteligência artificial e o modo Arcade (Arcadia Rumble), que garante uma boa dose de diversão para partidas rápidas.
A Experiência Irretocável no PS5 Pro vs. O Lançamento Turbulento no PC
O desempenho técnico do jogo apresenta uma dualidade gritante que não pode ser ignorada. Ao jogar em um PlayStation 5 Pro, a experiência é irretocável: o jogo roda com extrema estabilidade, cravado em 60 quadros por segundo e com resolução 4K, mantendo a fluidez mesmo quando a tela fica poluída por efeitos visuais e assistências simultâneas.

Por outro lado, a versão de PC chegou ao mercado em um estado lamentável de otimização, desapontando fortemente a comunidade que optou pela plataforma. Relatos e análises ao redor do mundo confirmam falhas graves de consumo de memória de vídeo, quedas bruscas de quadros por segundo e instabilidades severas que afetam até mesmo a sincronização do código de rede (netcode rollback). Como jogos de luta exigem sincronia perfeita frame a frame, os engasgos no PC prejudicam a partida para ambos os jogadores no modo online. Essa situação chegou ao ponto de fazer muitos jogadores nos consoles desativarem o recurso de crossplay para evitar partidas comprometidas.
Veredito: Uma Luta Excelente com Ressalvas
Marvel Tōkon: Fighting Souls é um jogo de luta com um núcleo de combate excepcional, divertido e extremamente competente. Ele consegue ser acessível para iniciantes sem abrir mão da profundidade necessária para atender ao cenário competitivo. A sua direção de arte é um show à parte e honra o peso dos personagens envolvidos.

No entanto, o título é sabotado por um modo história repetitivo que carece de inspiração e por um lançamento turbulento nos computadores que mina parte da sua comunidade. Se você busca um jogo com excelente jogabilidade para enfrentar amigos ou subir nos leques do modo online, e planeja jogar nos consoles, a recomendação é certa. Mas caso o seu foco seja uma boa narrativa solo ou se a sua única plataforma for o PC, vale a pena esperar por atualizações de otimização e correções por parte dos desenvolvedores.

