Com uma proposta diferente dos jogos tradicionais da franquia, ONE PIECE: Grand Gourmet coloca os Chapéus de Palha diante de um novo desafio: administrar um restaurante, descobrir receitas, explorar ilhas e receber centenas de personagens conhecidos. A experiência é bastante agradável e tem momentos divertidos, mas algumas limitações acabam aparecendo conforme o restaurante cresce.

Uma nova maneira de viver o mundo de One Piece

Quando pensamos em One Piece, é difícil não lembrar das grandes aventuras de Luffy e sua tripulação, das batalhas contra inimigos poderosos e das inúmeras ilhas que fazem parte desse universo. Mas existe outro elemento muito importante na obra de Eiichiro Oda: a comida. Sanji está sempre preparando refeições para seus companheiros, Luffy nunca perde uma oportunidade de comer e boa parte dos momentos de descontração da tripulação acontece ao redor de uma mesa.

É justamente aproveitando essa característica que ONE PIECE: Grand Gourmet apresenta sua proposta. Desenvolvido pela Kairosoft, o jogo deixa de lado as tradicionais aventuras de ação para apostar em um simulador de gerenciamento, colocando o jogador no comando de um restaurante ao lado dos personagens mais conhecidos da franquia. A ideia me pareceu bastante interessante desde o início, principalmente porque a gastronomia sempre teve uma relação importante com a personalidade dos Chapéus de Palha. Transformar esse elemento em uma experiência de administração parece uma escolha natural, ainda mais com Sanji assumindo a responsabilidade pela cozinha.

O resultado é um jogo que consegue transmitir bastante carinho pelo universo de One Piece, embora nem todas as suas mecânicas tenham o mesmo nível de qualidade. Existe uma boa quantidade de atividades e personagens para descobrir, mas algumas decisões de design acabam limitando o potencial de uma proposta que poderia ser ainda mais interessante.

Entre panelas e aventuras, uma história de reconstrução

A aventura começa com uma situação envolvendo o Baratie e um restaurante falso que está prejudicando sua reputação. Depois de um incidente que separa parte dos integrantes da tripulação, Luffy e Sanji precisam resolver o problema e reconstruir o estabelecimento. A partir daí, a história serve como ponto de partida para uma jornada que envolve administrar o restaurante, conquistar novos clientes e enfrentar concorrentes em disputas culinárias.

Não espere uma narrativa com a mesma complexidade dos principais arcos do anime ou do mangá. Aqui, a história funciona muito mais como uma maneira de apresentar os sistemas do jogo e criar oportunidades para reencontrar personagens conhecidos. Um dos elementos que mais gostei foi a maneira como as competições culinárias substituem os confrontos tradicionais. Em vez de resolver tudo na base da força, os personagens precisam impressionar os jurados com seus pratos. É uma adaptação interessante, principalmente porque Sanji está diretamente envolvido nesse processo.

Outro ponto positivo é a quantidade de referências espalhadas pela aventura. O jogo recupera personagens, regiões e acontecimentos de diferentes momentos da franquia, criando situações que podem despertar boas lembranças em quem acompanha One Piece há bastante tempo. Por outro lado, existe um cuidado importante: a presença de personagens e referências de diferentes períodos da história pode revelar acontecimentos importantes para quem ainda não chegou a determinadas partes do anime ou mangá. Portanto, vale ficar atento aos spoilers.

Nos bastidores do restaurante, o desafio de manter tudo funcionando

É na administração que ONE PIECE: Grand Gourmet concentra a maior parte de suas atividades. O jogador precisa construir seu restaurante, organizar os ambientes, contratar funcionários, preparar cardápios e melhorar os serviços para atrair cada vez mais visitantes. No começo, tudo parece relativamente simples: você posiciona algumas mesas, organiza a cozinha, escolhe os pratos e acompanha os primeiros clientes chegando. Porém, conforme o estabelecimento cresce, novas instalações, funcionários e possibilidades de gerenciamento são desbloqueados.

A participação dos personagens é um dos pontos mais interessantes dessa estrutura. Cada integrante possui habilidades relacionadas à sua personalidade e às suas características na obra. Sanji fica responsável pela cozinha, Franky ajuda nas construções, Usopp contribui com a produção de itens e Zoro participa do treinamento dos funcionários. Gostei bastante dessa utilização dos personagens porque eles realmente possuem uma função dentro do restaurante. Não estão ali apenas para agradar aos fãs ou preencher os ambientes. Suas habilidades ajudam na progressão e fazem com que a tripulação tenha uma participação importante na administração.

O problema é que o jogo apresenta muitas informações em pouco tempo. São diversos menus, atividades, melhorias e sistemas que precisam ser acompanhados, e nem sempre as explicações conseguem deixar tudo claro. Em determinados momentos, senti que precisava passar mais tempo entendendo onde estavam determinadas opções do que efetivamente aproveitando a administração. Isso não chega a comprometer toda a experiência, mas torna as primeiras horas um pouco confusas e pode afastar quem não está acostumado com esse tipo de simulador.

O talento de Sanji poderia render muito mais

A cozinha deveria ser um dos grandes destaques de Grand Gourmet, especialmente considerando que estamos falando de um jogo protagonizado por Sanji. O sistema permite descobrir receitas, combinar ingredientes e montar diferentes opções para o cardápio. Existem pratos principais, acompanhamentos, bebidas e sobremesas, além de referências a comidas e personagens conhecidos da franquia. É divertido descobrir novas receitas e acompanhar o crescimento das opções disponíveis, principalmente no começo da aventura.

Entretanto, depois de algumas horas, comecei a sentir falta de uma participação maior do jogador nesse processo. A culinária não exige tantas decisões estratégicas quanto poderia. Muitas vezes, basta encontrar combinações lucrativas e manter o restaurante funcionando. As preferências dos clientes também poderiam ter uma influência maior, incentivando a criação de cardápios diferentes para cada situação. Outro detalhe que incomoda é a descoberta de determinadas receitas. Algumas dependem de condições específicas ou da utilização de certos personagens, mas nem sempre fica claro o que precisa ser feito para desbloqueá-las.

No fim, a cozinha funciona bem como parte da progressão, mas poderia oferecer muito mais possibilidades. É uma pena que um jogo tão ligado à gastronomia não explore melhor justamente esse aspecto, ainda mais quando possui um personagem como Sanji no centro de sua proposta.

Uma reunião de rostos conhecidos e novas descobertas

Se existe algo que realmente me fez continuar jogando, foi a possibilidade de encontrar tantos personagens de One Piece. Grand Gourmet reúne mais de 400 personagens da franquia, incluindo integrantes da tripulação, aliados, antagonistas e figuras que tiveram participações menores ao longo da história. Ver todos esses personagens frequentando o restaurante é muito divertido, principalmente para quem acompanha a obra há anos. Existe aquela satisfação de encontrar alguém conhecido e descobrir qual será sua participação dentro do jogo.

Também é possível desenvolver relacionamentos com os visitantes. Conforme a afinidade aumenta, novos diálogos, receitas e recompensas podem ser desbloqueados. É uma mecânica simples, mas que ajuda a dar mais personalidade ao restaurante e cria motivos para continuar recebendo determinados personagens. As expedições também merecem destaque. Nelas, Luffy e os demais integrantes podem explorar diferentes regiões em busca de ingredientes, recursos e novos personagens. O jogador precisa organizar sua equipe e acompanhar os resultados das atividades.

Gosto da maneira como essas expedições complementam a administração. Elas oferecem objetivos diferentes e ajudam a manter a sensação de que estamos realmente acompanhando uma tripulação explorando o mundo. Entretanto, algumas atividades acabam ficando repetitivas. Conseguir determinados personagens, ingredientes e níveis de afinidade pode exigir bastante tempo, principalmente quando não sabemos exatamente quais condições precisam ser cumpridas. A quantidade de conteúdo é impressionante, mas nem sempre sua organização acompanha essa variedade.

Construindo um restaurante à altura dos Chapéus de Palha

Outra atividade importante é a construção do restaurante. O jogo disponibiliza mais de 200 itens de decoração e construção, permitindo organizar os ambientes de diferentes maneiras. É possível posicionar mesas, instalar equipamentos, adicionar atrações e criar espaços temáticos inspirados no universo de One Piece. Essa parte tem bastante potencial, principalmente para quem gosta de simuladores de gerenciamento e personalização. Ver o restaurante começar pequeno e ganhar cada vez mais instalações é uma das recompensas mais agradáveis da progressão.

Porém, as ferramentas de construção não são tão confortáveis quanto deveriam. Posicionar e reorganizar móveis pode ser trabalhoso, e alguns comandos não respondem da maneira mais intuitiva. Também senti que o jogo poderia incentivar mais a criatividade. Em determinadas situações, parece mais vantajoso espalhar objetos que oferecem bônus do que realmente pensar em uma organização visual interessante. Não é um sistema ruim, mas poderia ser muito mais agradável com ferramentas melhores e mais liberdade para organizar os ambientes.

Uma apresentação charmosa, mas com pouco destaque sonoro

Visualmente, ONE PIECE: Grand Gourmet segue o estilo tradicional da Kairosoft, utilizando pixel art para representar personagens, cenários e instalações. Particularmente, gosto bastante dessa direção artística. Os personagens são facilmente reconhecíveis, as animações dão vida ao restaurante e existe uma boa quantidade de pequenos detalhes espalhados pelos ambientes. Mesmo com tantos visitantes circulando simultaneamente, o jogo consegue manter uma identidade visual agradável. É um estilo simples, mas que combina muito bem com a proposta.

A parte sonora, entretanto, não me chamou tanta atenção. As músicas cumprem sua função durante as atividades, mas acabam ficando repetitivas depois de algumas horas. Também senti falta de temas mais conhecidos do anime, que poderiam trazer uma sensação maior de familiaridade. A ausência de dublagem é outro aspecto que poderia ser melhor trabalhado. Não considero isso indispensável para um jogo desse estilo, mas ouvir as vozes dos personagens em determinados momentos ajudaria bastante na imersão e tornaria os encontros com figuras conhecidas ainda mais especiais.

Os problemas que aparecem com o passar das horas

Apesar de todas as qualidades, ONE PIECE: Grand Gourmet possui alguns problemas que ficam mais evidentes conforme avançamos. O primeiro é a repetição. No início, descobrir receitas, organizar o restaurante e encontrar personagens é bastante divertido. Porém, depois de algumas horas, determinadas atividades começam a seguir estruturas muito parecidas, fazendo com que parte da progressão perca o encanto inicial.

A economia também não exige tanto planejamento. Embora seja necessário administrar recursos e investir em melhorias, dificilmente senti uma pressão financeira que realmente exigisse decisões complicadas. Outro problema está na interface. A quantidade de menus e informações pode tornar tarefas simples mais demoradas do que deveriam. Quando o restaurante está cheio e existem várias atividades acontecendo ao mesmo tempo, acompanhar tudo pode ser cansativo. A construção também merecia mais atenção, principalmente pela dificuldade de posicionar e reorganizar determinados objetos.

São problemas que não destroem a experiência, mas impedem que o jogo aproveite todo o potencial de sua proposta. Existe muito conteúdo disponível, porém algumas mecânicas parecem ter sido desenvolvidas apenas o suficiente para cumprir sua função. É justamente por isso que sinto que Grand Gourmet poderia ser uma experiência ainda melhor com alguns ajustes na profundidade dos sistemas e na organização da interface.


Jogo analisado e executado em um PC via Steam
Copia fornecida para analise pela Bandai Namco e Theo Games