Jogar Tales of Eternia Remastered traz aquela sensação de revisitar um jogo antigo e perceber que algumas coisas continuam funcionando muito bem, enquanto outras mostram o peso da idade. Os personagens ainda são carismáticos, a aventura tem seu charme e o combate oferece boas possibilidades para quem gosta de explorar suas mecânicas. Por outro lado, algumas limitações incomodam bastante, principalmente quando comparadas ao que encontramos nos RPGs atuais.

O remaster também tem seus altos e baixos. Embora traga melhorias importantes e recupere conteúdos que ficaram de fora de versões anteriores no Ocidente, o trabalho visual deixa a desejar em alguns aspectos. É um relançamento que merece atenção, mas que poderia ter recebido um tratamento mais cuidadoso.
Personagens que fazem a jornada valer a pena
Um dos maiores acertos de Tales of Eternia está no seu grupo de protagonistas. Reid é um jovem que prefere levar uma vida tranquila como caçador a se envolver em grandes aventuras. Ele não tem aquela vontade imediata de salvar o mundo e, no começo, parece muito mais interessado em continuar com sua rotina. Essa postura dá ao personagem uma personalidade própria e torna sua participação na história mais interessante.
Farah funciona como um contraponto perfeito. Impulsiva e sempre disposta a ajudar, ela dificilmente consegue ignorar um problema, mesmo quando isso significa colocar todo mundo em uma situação complicada. A relação entre os dois rende bons momentos, principalmente quando suas personalidades entram em conflito.

Meredy também conquista espaço ao longo da jornada. Sem conseguir se comunicar inicialmente com os demais personagens, ela precisa superar essa barreira enquanto tenta encontrar seu lugar naquele mundo. Keele, por sua vez, é o estudioso do grupo e frequentemente entra em conflito com Reid, especialmente quando o assunto envolve conhecimento e decisões práticas.
O que mais gosto nesse elenco é que os personagens ganham profundidade aos poucos, sem depender apenas dos acontecimentos principais da história. Boa parte disso aparece nas Skits, conversas opcionais que ajudam a desenvolver as relações entre os integrantes do grupo.
A restauração dessas cenas é uma das melhorias mais importantes desta versão, já que elas ficaram de fora do lançamento original norte-americano. Para quem não teve contato com o jogo anteriormente, é uma oportunidade de conhecer melhor os protagonistas e entender as relações que se formam durante a aventura. São momentos curtos, mas que fazem diferença na construção do grupo.
Uma história familiar, mas que sabe manter o interesse
A história de Tales of Eternia não é exatamente surpreendente. Temos dois mundos ameaçados por um conflito, um jovem que acaba envolvido em acontecimentos muito maiores do que imaginava e um grupo de personagens que precisa encontrar uma maneira de impedir uma catástrofe. São elementos bastante conhecidos de RPGs japoneses, inclusive de outros jogos da própria franquia.
Ainda assim, a narrativa funciona bem porque não precisa complicar tudo para manter o jogador interessado. A aventura apresenta seus conflitos, desenvolve os acontecimentos e segue em frente sem passar tempo demais explicando o que já ficou claro. As histórias paralelas também ajudam a dar mais contexto ao mundo, sem desviar excessivamente a atenção da trama principal.

Outro ponto positivo é a maneira como a narrativa se conecta às mecânicas do jogo. Os Craymels, criaturas ligadas aos elementos, não servem apenas para ampliar as possibilidades de combate. Eles também fazem parte da mitologia daquele universo e ajudam a explicar os conflitos apresentados ao longo da jornada.
Mesmo com alguns momentos previsíveis, a história tem ritmo e consegue sustentar o interesse até o final. Não é uma narrativa que reinventa o gênero, mas também não precisa disso para funcionar.
O combate ainda tem boas ideias, mas mostra a idade
O sistema de batalha é provavelmente o aspecto que mais pode dividir opiniões. Na época do lançamento original, o Linear Motion Battle System era um dos elementos que ajudavam a diferenciar Tales of Eternia de outros RPGs por turnos. Em vez de simplesmente selecionar comandos em menus, o jogador participa diretamente dos confrontos em um campo de batalha bidimensional.
Existe uma boa dose de estratégia nas Artes, que podem evoluir conforme são utilizadas, liberando novas variações e combinações. Também é possível encadear ataques básicos e habilidades para criar combos mais eficientes. Nas dificuldades mais elevadas, escolher os equipamentos certos, explorar fraquezas elementais e configurar adequadamente o grupo faz bastante diferença.

O problema é que essas possibilidades não funcionam da mesma maneira para todos os personagens. Reid e Farah são os principais responsáveis pelos ataques físicos, enquanto Meredy e Keele ficam concentrados na conjuração de magias. Isso limita um pouco a variedade de estilos de jogo, especialmente para quem gostaria de controlar os diferentes integrantes do grupo de maneira mais ativa.
A inteligência artificial dos aliados também pode atrapalhar. Em determinados momentos, os personagens controlados pelo computador tomam decisões ruins, avançando contra inimigos quando deveriam manter distância ou se expondo desnecessariamente durante confrontos mais difíceis. É possível ajustar algumas estratégias e orientar o comportamento do grupo, mas nem sempre essas configurações funcionam como deveriam.
Isso fica ainda mais evidente nas batalhas contra chefes, nas quais um erro da inteligência artificial pode comprometer toda a luta. O sistema de combate continua divertido quando suas mecânicas funcionam bem, mas exige paciência para lidar com essas limitações.
Melhorias que tornam a aventura mais acessível
Entre as novidades do remaster, os marcadores de objetivos são uma adição bastante útil. Eles ajudam a identificar o próximo destino e indicam conteúdos opcionais que poderiam passar despercebidos durante a exploração.
Isso é especialmente importante em um RPG antigo como Tales of Eternia, no qual algumas atividades secundárias podem se tornar inacessíveis conforme a história avança. Ter indicações mais claras ajuda a evitar que o jogador perca conteúdos importantes sem perceber.

O Boost Mode também merece destaque. Com ele, é possível ajustar multiplicadores de experiência, dinheiro e dano, além de desativar os encontros aleatórios. São opções que permitem adaptar a experiência ao gosto de cada jogador, seja para facilitar os combates, acelerar a progressão ou simplesmente explorar o mundo sem interrupções constantes.
Também existe a possibilidade de alternar entre os visuais originais e os remasterizados. A ideia é interessante, principalmente para quem gosta de comparar as duas versões, embora o resultado visual do remaster esteja longe de ser um dos seus maiores méritos.
Uma remasterização visual que poderia ser melhor
É na apresentação gráfica que Tales of Eternia Remastered mais decepciona. Algumas melhorias são perceptíveis, mas falta consistência entre os diferentes elementos visuais.
Os cenários receberam ajustes, enquanto os personagens e os sprites utilizados nas batalhas preservam boa parte da aparência original. Essa escolha não seria necessariamente um problema, já que manter o estilo artístico clássico faz sentido para um jogo dessa época. A dificuldade está na maneira como esses elementos foram combinados, criando uma diferença perceptível entre os fundos e os personagens.

O resultado não chega a comprometer a experiência por completo, mas passa a impressão de que o trabalho ficou pela metade. Quem aprecia o visual dos RPGs clássicos provavelmente conseguirá conviver com isso, embora seja difícil não imaginar como o jogo poderia ter ficado com um tratamento mais uniforme.
As cenas animadas são outro ponto negativo. O tratamento aplicado para melhorar a resolução deixa algumas imagens borradas e compromete detalhes que deveriam estar mais definidos. Em vez de valorizar essas sequências, o resultado acaba prejudicando parte do trabalho artístico original.
É uma pena, porque essas cenas ajudam a dar personalidade à aventura. O problema não está em preservar a estética antiga, mas na qualidade do processamento utilizado para adaptar o material às telas atuais.
Existem alternativas, como filtros de CRT, que podem melhorar a apresentação dependendo da plataforma e das preferências de cada jogador. Ainda assim, seria melhor se a própria remasterização oferecesse um resultado mais consistente sem depender de ajustes externos.
A importância de finalmente ter o jogo acessível
A história de Tales of Eternia no Ocidente ajuda a entender por que este relançamento é importante. Na América do Norte, o jogo foi lançado originalmente com o nome Tales of Destiny II, apesar de não ser o mesmo título que Tales of Destiny 2, lançado no Japão. A versão para PSP também chegou à Europa, mas não teve lançamento norte-americano.
Essa trajetória tornou o acesso ao jogo mais complicado para parte do público ocidental, especialmente para quem queria conhecê-lo por meios oficiais. Por isso, disponibilizar uma versão atualizada em plataformas modernas representa um passo importante para preservar esse capítulo da franquia.

A restauração das Skits também merece ser valorizada, pois recupera parte do conteúdo que não estava presente na edição norte-americana original. A nova dublagem em inglês é outra mudança desta versão, oferecendo uma alternativa para quem prefere jogar com vozes em inglês.
Essas melhorias não resolvem todos os problemas do remaster, mas ajudam a tornar o jogo mais acessível para quem nunca teve a oportunidade de experimentá-lo.
Jogo analisado e executado em um Nintendo Switch 2
Copia fornecida para analise por meio da distribuidora Bandai Namco e Theo Games





