O retorno de uma lenda

Poucos jogos conseguiram deixar uma marca tão grande na indústria quanto The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Lançado originalmente para Nintendo 64, o título se tornou uma referência para os jogos de ação e aventura, especialmente pela maneira como trabalhava a exploração em ambientes tridimensionais, o combate e a progressão da história. Sua influência pode ser percebida em inúmeras produções que vieram depois, inclusive fora da própria franquia. Não é difícil entender por que tantos jogadores ainda o consideram um dos melhores jogos já feitos. Sua histórica média de 99/100 no Metacritic também ajuda a dimensionar o tamanho de seu reconhecimento.

Trazer um jogo com esse peso para os padrões atuais não é uma tarefa simples. Afinal, existe uma expectativa enorme em torno de qualquer tentativa de revisitar uma obra tão querida. Lançado em 5 de novembro de 2026 para Nintendo Switch 2, o remake chega com a missão de preservar a aventura original e, ao mesmo tempo, apresentá-la a jogadores que nunca tiveram contato com a versão de Nintendo 64.

Para isso, a Nintendo reconstruiu os cenários, reformulou os modelos dos personagens e modernizou boa parte dos controles e sistemas de exploração. O resultado é uma versão que mantém os acontecimentos e a estrutura que fizeram a fama do original, mas procura eliminar algumas limitações que ficaram mais evidentes com o passar dos anos.

Depois de conhecer as mudanças e passar novamente por Hyrule, minha impressão é bastante positiva. O remake entende bem o que precisava ser atualizado e, principalmente, o que deveria permanecer intacto. Nem todas as novidades funcionam com a mesma eficiência, mas a experiência mostra que ainda existe muito espaço para aproveitar essa aventura, mesmo depois de tantas décadas.

Uma jornada que atravessa o tempo

A história continua acompanhando Link em sua tentativa de impedir que Ganondorf tome o controle de Hyrule. A jornada começa quando o protagonista ainda é criança e recebe a missão de proteger a Pedra Espiritual da Floresta. O que parece ser uma tarefa relativamente simples acaba colocando Link no centro de um conflito muito maior, que muda completamente o destino do reino.

Um dos aspectos mais interessantes da narrativa continua sendo a passagem do tempo. Na primeira parte, Hyrule é apresentada como um lugar colorido, cheio de personagens curiosos e pequenas descobertas. Depois de Link despertar como adulto, porém, encontramos um reino muito diferente. Regiões antes tranquilas estão devastadas, personagens conhecidos enfrentam as consequências da conquista de Ganondorf e a sensação de perigo passa a acompanhar boa parte da aventura.

Essa transformação funciona muito bem porque não depende apenas de diálogos para mostrar o amadurecimento de Link. O próprio mundo conta essa história. A diferença entre a Hyrule que conhecemos na infância e aquela que encontramos anos depois ajuda a dar peso à jornada e continua sendo um dos momentos mais marcantes do jogo.

O remake aproveita os recursos atuais para dar mais vida a essas situações. Os personagens contam com animações e expressões mais elaboradas, enquanto as cenas cinematográficas ajudam a valorizar acontecimentos importantes. A inclusão de vozes também muda a maneira como algumas figuras se apresentam. Navi ganhou uma interpretação mais expressiva, enquanto Ganondorf se beneficia de uma presença vocal que reforça sua personalidade e ameaça.

Ainda assim, a Nintendo teve o cuidado de não interferir no que já funcionava. A história segue praticamente os mesmos caminhos, sem grandes alterações nos acontecimentos ou na personalidade dos personagens. É uma decisão acertada, já que a narrativa de Ocarina of Time continua funcionando muito bem e não precisava ser reinventada para encontrar espaço nesta nova versão.

Hyrule nunca foi tão agradável de explorar

É na jogabilidade que encontramos algumas das mudanças mais importantes do remake. A movimentação foi atualizada, a câmera agora pode ser controlada livremente pelo segundo analógico e os comandos de corrida, salto e esquiva estão mais próximos do que encontramos nos jogos atuais.

Essa mudança na câmera faz bastante diferença durante a exploração. No Nintendo 64, o controle original contava com apenas um analógico, o que limitava as possibilidades de movimentação e exigia soluções próprias para controlar a perspectiva. Agora, observar os ambientes e acompanhar os inimigos durante os confrontos é muito mais natural. O sistema de mira por alvos fixos continua presente, preservando uma das mecânicas mais importantes do original, mas funciona de maneira mais confortável com os novos comandos.

Também fica claro que este remake foi pensado para conquistar quem nunca jogou Ocarina of Time. Nesse sentido, considero que a Nintendo acertou bastante. Os controles modernos, a nova apresentação visual e as melhorias na exploração tornam a experiência muito mais convidativa para quem está chegando agora à franquia ou simplesmente não teve contato com a versão original.

Outro ponto que me agradou foi o cuidado com o ritmo da aventura. O level design continua respeitando a estrutura conhecida, mas a maneira como os objetivos são apresentados ajuda a evitar que o jogador fique perdido sem saber como prosseguir. O diário disponível no menu reúne informações importantes sobre a jornada, enquanto os próprios diálogos dos personagens oferecem pistas sobre o que fazer em seguida.

São ajustes relativamente simples, mas que fazem diferença durante as várias horas de campanha. Em vez de depender tanto da tentativa e erro ou de interromper a exploração para descobrir o próximo objetivo, o jogador consegue acompanhar melhor o andamento da aventura. Isso não significa que o jogo tenha perdido sua liberdade ou que passe a conduzir o jogador o tempo inteiro. Hyrule continua oferecendo espaço para exploração, e boa parte da satisfação ainda vem de descobrir caminhos, segredos e atividades por conta própria.

O mundo também ganhou mais detalhes. Os ambientes contam com novos elementos visuais, personagens espalhados pelas regiões e pequenas interações que ajudam a transmitir a sensação de um reino mais vivo. Alguns itens colecionáveis foram reposicionados, e determinadas áreas receberam alterações em seus quebra-cabeças e estruturas. As masmorras também passaram por ajustes, com destaque para o Templo da Água, que teve sua organização revista para diminuir a confusão causada por algumas de suas mecânicas na versão original.

Entre as novidades, uma das mais curiosas é a possibilidade de utilizar o microfone do Nintendo Switch 2 para tocar as músicas da ocarina com a própria voz ou por meio de instrumentos. É uma função que aproveita as características do console e oferece uma maneira diferente de interagir com uma das mecânicas mais importantes da aventura. A mira por movimento também aparece como uma alternativa de controle, enquanto o desempenho a 60 quadros por segundo deixa a movimentação consideravelmente mais fluida.

Nem todas as adições, entretanto, têm o mesmo impacto. O recurso Fios do Tempo traz novas atividades e elementos para descobrir, mas algumas dessas novidades acabam parecendo pouco aproveitadas. O Salão dos Inimigos Derrotados é um exemplo disso. A ideia tem potencial, principalmente para quem gostaria de continuar explorando o jogo depois de terminar a campanha, mas o conteúdo oferecido poderia ser mais interessante e apresentar desafios mais elaborados.

Também senti que a redução da dificuldade em determinados momentos tira um pouco do peso de algumas situações. Entendo a intenção de tornar a aventura mais acessível, principalmente para quem está jogando pela primeira vez, mas acredito que algumas partes poderiam preservar melhor o desafio do original.

Entre a nostalgia e uma nova identidade

A maior qualidade deste remake está em entender que Ocarina of Time não precisava de uma reformulação completa. A estrutura da aventura, a organização das regiões, a progressão da história e os principais desafios continuam familiares para quem conhece o jogo de Nintendo 64. A diferença está na maneira como tudo isso foi apresentado e em como as melhorias ajudam a experiência a funcionar melhor nos dias atuais.

A reconstrução de Hyrule é um dos pontos que mais chamam a atenção. A Floresta Kokiri, a Vila Kakariko, o Campo de Hyrule e as demais regiões ganharam novos detalhes, texturas e efeitos de iluminação. Os cenários apresentam uma riqueza visual muito maior, enquanto os personagens contam com modelos e animações que deixam as interações mais naturais. A diferença entre o reino da infância de Link e aquele encontrado depois do salto temporal também ficou mais evidente, reforçando visualmente as consequências da conquista de Ganondorf.

Mas um dos aspectos que mais gostei foi a direção de arte escolhida para os personagens. Quando os primeiros visuais do remake foram apresentados, houve bastante estranhamento por parte de alguns jogadores, principalmente porque os novos modelos se afastavam da aparência que muitos tinham associado ao clássico durante tantos anos. Particularmente, gostei bastante dessa escolha.

Existe um contraste interessante entre os cenários, que apresentam iluminação, água e texturas mais próximas de uma representação realista, e os personagens, que seguem um estilo mais caricato e estilizado. Essa combinação poderia não funcionar tão bem em outras produções, mas aqui ajuda a preservar uma identidade visual que combina com a proposta da franquia.

A inspiração no teatro de marionetes japonês também merece destaque. Os personagens apresentam proporções e traços faciais que lembram os bonecos utilizados nessas apresentações, criando a impressão de que estamos acompanhando uma antiga lenda sendo encenada. É uma interpretação visual que conversa muito bem com a própria narrativa de Ocarina of Time, que sempre teve essa sensação de uma grande história sendo contada através de uma aventura fantástica.

Na minha opinião, essa foi uma decisão muito acertada. Em vez de tentar aproximar todos os personagens de um visual realista, a Nintendo apostou em uma identidade própria, que dá personalidade ao remake e faz com que ele tenha uma apresentação diferente de outras aventuras da série. Mesmo que os novos modelos possam causar estranhamento no primeiro contato, acredito que a escolha funciona muito bem quando observamos o conjunto.

A inspiração visual

As mudanças na movimentação e nos controles também ajudam a diminuir a distância entre Ocarina of Time e os jogos de aventura atuais. Algumas situações que exigiam mais paciência no original agora são resolvidas de maneira mais direta, e o Templo da Água, conhecido por gerar bastante frustração entre os jogadores, está consideravelmente mais agradável de explorar.

Por outro lado, senti falta de Master Quest. A versão alternativa do jogo, conhecida por apresentar masmorras reorganizadas e desafios mais difíceis, seria uma excelente adição ao pacote. Sua ausência não compromete a campanha principal, mas representa uma oportunidade perdida de oferecer algo realmente diferente para quem já conhece cada canto de Hyrule.

Também existem algumas mudanças na atmosfera que não me agradaram tanto. Determinadas áreas perderam parte daquela sensação de perigo e desconforto que ajudava a marcar o jogo original. Isso fica mais perceptível no Poço dos Mortos e no Templo das Sombras, locais cuja ambientação poderia ter preservado melhor o clima inquietante que tinham na versão de 1998. São diferenças que não chegam a prejudicar a aventura, mas fazem falta para quem gostava justamente desse lado mais sombrio de Ocarina of Time.

Melodias que atravessam gerações

A trilha sonora continua sendo um dos grandes destaques da aventura. As composições originais fazem parte da identidade de Ocarina of Time e são fundamentais para a maneira como cada região e situação são apresentadas. Seja durante a exploração de Hyrule, nos momentos mais tranquilos ou nos confrontos contra os inimigos, as músicas ajudam a construir a atmosfera do jogo.

Nesta versão, os arranjos receberam uma apresentação orquestral que valoriza as composições e dá mais profundidade às melodias. O resultado funciona especialmente bem nas regiões mais importantes da aventura, trazendo uma nova interpretação para músicas que já são bastante conhecidas pelos fãs.

Uma das novidades mais interessantes está na maneira como podemos tocar a ocarina. Agora, o microfone do Nintendo Switch 2 consegue reconhecer as melodias reproduzidas pelo jogador, permitindo cantar ou utilizar outro instrumento musical para executar as músicas do jogo. É uma adição bastante divertida, que aproveita os recursos do console e oferece uma maneira diferente de interagir com essa mecânica tão importante da aventura.

Apesar de ser uma ideia interessante, senti falta de uma alternativa mais prática: a possibilidade de simplesmente selecionar a música desejada em uma lista e deixar que Link a toque automaticamente. Afinal, nem sempre queremos reproduzir cada sequência de notas manualmente, principalmente quando precisamos utilizar a mesma melodia várias vezes durante a exploração. Seria uma opção simples, mas que tornaria essa mecânica muito mais conveniente sem retirar a possibilidade de tocar as músicas por conta própria.

Ainda assim, a trilha sonora orquestral e as novas possibilidades de interação mostram o cuidado dedicado à apresentação musical do remake. As melodias continuam tão marcantes quanto antes e seguem sendo uma das partes mais especiais da jornada.

Nem tudo precisava mudar

Entre os maiores acertos do remake estão a reconstrução visual, a nova direção de arte e as melhorias nos controles. Hyrule está muito mais detalhada, os personagens ganharam personalidade e a movimentação acompanha melhor as expectativas atuais. Também gostei das mudanças no level design e na apresentação dos objetivos, que deixam a progressão mais intuitiva sem comprometer a liberdade de exploração. Os ajustes nas masmorras, especialmente no Templo da Água, e a trilha sonora orquestral completam um conjunto bastante competente.

Outro ponto que merece reconhecimento é a dublagem brasileira, que apresenta um excelente trabalho e ajuda a dar mais personalidade aos personagens. No entanto, acredito que a Nintendo poderia ter ido um pouco além nesse aspecto. Mesmo com a inclusão de vozes, o jogo ainda mantém diversas interações em que os personagens se comunicam apenas por meio de textos e expressões faciais. Essas conversas poderiam ter recebido uma atenção maior, com mais diálogos dublados para tornar os encontros e as interações durante a exploração ainda mais naturais. Seria uma adição muito bem-vinda e que ajudaria a aproveitar melhor o trabalho realizado na localização brasileira.

Por outro lado, algumas decisões poderiam ter sido melhor aproveitadas. A redução da dificuldade pode tirar parte do desafio de determinadas situações, enquanto a ausência de Master Quest deixa de oferecer uma alternativa interessante para os jogadores veteranos. O Salão dos Inimigos Derrotados também poderia contar com mais atividades e recompensas. Além disso, algumas áreas perderam parte da atmosfera sombria que ajudava a diferenciar o original.

São problemas pontuais, mas que mostram que ainda existiam oportunidades para tornar o pacote mais completo.


Jogo analisado e executado em um Nintendo Switch 2