Introdução
Depois de um capítulo anterior que deixou bastante a desejar, Call of Duty: Modern Warfare 4 chega com a responsabilidade de colocar a franquia de volta nos trilhos. A Infinity Ward parece ter entendido que não precisava reinventar a fórmula para entregar uma boa campanha. Em vez de insistir em estruturas que nem sempre funcionam, o estúdio volta a apostar em missões mais diretas, tiroteios bem construídos e uma história que finalmente dá continuidade aos acontecimentos dos jogos anteriores.
O resultado é uma das melhores campanhas de Call of Duty dos últimos anos. Ainda não colocaria o jogo ao lado dos capítulos mais marcantes da série, como Call of Duty 4: Modern Warfare, Modern Warfare 2 ou o reboot de 2019, mas é difícil não perceber a melhora. A história tem um rumo mais definido, as missões mantêm um bom ritmo e existe menos espaço para atividades que parecem estar ali apenas para prolongar a experiência.

O principal acerto está em entender o que faz uma campanha de Call of Duty funcionar. A ação continua sendo o centro da experiência, mas há espaço para desenvolver os personagens e dar mais peso aos acontecimentos. Nem tudo funciona como deveria, especialmente quando o assunto são os antagonistas, mas a Infinity Ward entrega uma campanha que sabe aproveitar melhor as qualidades da franquia.
História e narrativa
A campanha acompanha duas histórias que se desenvolvem em paralelo. De um lado, temos o Capitão Price lidando com as consequências dos acontecimentos de Modern Warfare 3 e partindo em busca de Makarov. Do outro, conhecemos Park, um jovem soldado sul-coreano que se vê no meio de uma invasão da Coreia do Norte e precisa lutar para sobreviver.
Essa divisão funciona muito bem porque tira parte do peso das costas da Força-Tarefa 141 e permite que a campanha explore outro lado do conflito. A história de Price mantém a ligação com os jogos anteriores, enquanto a trajetória de Park apresenta uma perspectiva diferente, acompanhando alguém que ainda está tentando entender o que significa estar em uma guerra de verdade.

É na jornada de Price que a narrativa encontra alguns de seus melhores momentos. Depois da morte de Soap, o capitão passa a agir de maneira cada vez mais impulsiva. Sua perseguição a Makarov deixa de ser apenas uma missão e se transforma em algo pessoal, levando-o a tomar decisões que dificilmente aceitaria em outras circunstâncias.
Price sempre foi um personagem disposto a correr riscos para cumprir seus objetivos, mas existe uma diferença entre o homem que conhecemos anteriormente e aquele que encontramos aqui. Ele continua acreditando que está fazendo o necessário, embora suas atitudes indiquem que a vingança está começando a falar mais alto do que seus próprios princípios.

A situação fica ainda mais interessante quando Ghost e Gaz passam a persegui-lo. Pela primeira vez em muito tempo, Price deixa de ocupar a posição de liderança que conhecemos tão bem e se vê enfrentando antigos companheiros. Eles conhecem seus métodos, sabem como ele pensa e entendem o perigo que representa quando decide agir por conta própria.
Esse conflito dá mais peso à narrativa do que qualquer sequência de explosões poderia oferecer. A Força-Tarefa 141 sempre foi uma das partes mais importantes dessa nova trilogia, então acompanhar o grupo se desfazendo é uma mudança significativa. Não se trata apenas de mais uma missão contra um inimigo conhecido, mas das consequências de escolhas que começam a comprometer as relações entre os próprios personagens.
Outro ponto positivo é a maneira como a campanha encaminha os acontecimentos deixados pelos jogos anteriores. Ainda existem questões que poderiam receber um tratamento melhor, mas a história transmite uma sensação de encerramento que faltou ao capítulo passado. Desta vez, existe um destino mais claro para os personagens, em vez de simplesmente preparar o terreno para uma continuação.

O problema está nos vilões. Makarov continua ocupando uma posição central na trama, mas falta desenvolvimento para que ele alcance o mesmo impacto que teve na trilogia original. Sua reputação dentro da franquia ajuda a estabelecer a ameaça, porém o jogo nem sempre consegue mostrar por que ele é tão perigoso além dos acontecimentos que provoca.
Archer também surge como uma figura ligada ao conflito principal, mas sua participação acaba dividindo a atenção da narrativa. A ideia de ampliar a ameaça não é ruim, só que os dois personagens poderiam ter sido trabalhados com mais cuidado. Em alguns momentos, fica a impressão de que a campanha teria ganhado força se tivesse concentrado mais tempo em Makarov e em suas motivações.
Apesar disso, a história representa um avanço importante. Ela não resolve todos os problemas da nova trilogia, mas dá mais sentido aos acontecimentos e aproveita melhor os personagens que já fazem parte desse universo.
Park e a guerra na Coreia
A história de Park é uma das novidades mais interessantes da campanha. Enquanto Price está consumido pela própria busca por vingança, o jovem sul-coreano precisa enfrentar uma guerra para a qual não estava preparado.
A invasão da Coreia do Norte coloca Park em uma situação extrema. Ele não é apresentado como um soldado experiente ou um herói que parece saber exatamente o que fazer. É alguém que precisa aprender a sobreviver enquanto tenta proteger seus companheiros e lidar com tudo o que está acontecendo ao seu redor.

Essa diferença em relação a Price ajuda a dar identidade à campanha. O capitão já conhece os horrores da guerra e começa a ultrapassar limites que antes respeitava. Park, por outro lado, está vivendo essa realidade pela primeira vez e precisa descobrir como continuar lutando sem perder de vista aquilo em que acredita.
Gosto da escolha de apresentar um protagonista que não depende de uma ligação direta com os personagens tradicionais para justificar sua presença. A história de Park funciona por conta própria e oferece um ponto de vista diferente sobre o conflito. Em vez de acompanhar apenas operações militares internacionais, o jogador também vê o que acontece quando a guerra chega à casa de quem precisa defendê-la.
As missões ambientadas na Coreia ajudam a reforçar essa perspectiva. A invasão afeta a população civil e cria situações em que cumprir um objetivo militar não é necessariamente a única preocupação. Em determinados momentos, o jogador precisa lidar com pessoas que estão tentando sobreviver em meio ao conflito, o que acrescenta uma camada de tensão aos confrontos.

Uma das sequências mais interessantes envolve um soldado norte-coreano que começa a questionar as ordens recebidas. Durante a missão, o jogador encontra civis e pode escolher como lidar com eles, seja intimidando, tentando acalmar a situação ou recorrendo à força.
Essas decisões não mudam radicalmente o rumo da campanha, mas ajudam a definir a postura do personagem diante daquilo que lhe é ordenado. É uma mecânica simples, porém funciona dentro da proposta. Nem toda escolha precisa abrir caminhos narrativos completamente diferentes para ter algum valor.
É uma pena que o jogo não vá muito além disso. A campanha não se aprofunda na complexidade política do conflito entre as duas Coreias, e o cenário continua servindo principalmente como pano de fundo para a ação. Ainda assim, a mudança de perspectiva funciona e mostra que a franquia pode explorar outros contextos sem depender exclusivamente de Price e da Força-Tarefa 141.
Gameplay e combate
Na jogabilidade, Modern Warfare 4 acerta ao manter o combate como o principal atrativo da experiência. A movimentação é mais contida, os confrontos exigem atenção ao posicionamento e os tiroteios recuperam uma dinâmica próxima daquela vista no reboot de 2019.
Os deslizes continuam presentes, mas não dominam os confrontos. O personagem se movimenta de maneira mais natural, e a ação não depende tanto de movimentos exagerados para manter o ritmo. É uma abordagem que combina melhor com a proposta militar do jogo e permite que os tiroteios tenham intensidade sem transformar cada confronto em uma sequência de acrobacias.

O arsenal também merece destaque. As armas apresentam diferenças perceptíveis no recuo, na cadência de tiro e no som dos disparos. Isso ajuda a dar personalidade a cada equipamento e faz com que a escolha da arma tenha alguma importância além da aparência.
Os tiroteios são responsivos e passam uma boa sensação de impacto. A mira acompanha os movimentos com precisão, os disparos têm peso e o controle funciona bem mesmo quando a situação fica caótica. A Infinity Ward já demonstrou experiência nesse tipo de combate, e aqui o estúdio consegue aproveitar essa base sem complicar desnecessariamente o sistema.
O mais importante é que essa qualidade se mantém durante boa parte da campanha. Mesmo sem apresentar mudanças radicais, o jogo consegue manter os confrontos interessantes, principalmente quando as missões alternam entre momentos em que é melhor avançar com cuidado e situações em que tudo se transforma em um tiroteio intenso.
Outra novidade é o combate corpo a corpo. Em determinados trechos, o jogador precisa enfrentar inimigos diretamente, utilizando golpes, bloqueios e contra-ataques. A mecânica não tem a profundidade de um jogo dedicado a esse tipo de combate, mas funciona como uma alternativa aos tiroteios e acrescenta alguma variedade às missões.

Esses momentos também combinam com a situação de Price. A brutalidade dos confrontos ajuda a mostrar o estado emocional do personagem e reforça a impressão de que ele está cada vez menos preocupado em respeitar os próprios limites.
Ainda assim, o combate corpo a corpo poderia ser mais elaborado. Ele aparece em situações pontuais e funciona bem dentro delas, mas não chega a mudar a maneira como jogamos. É uma adição interessante, embora ainda pareça ter espaço para evoluir em futuros capítulos.
No geral, a jogabilidade mostra que a fórmula tradicional de Call of Duty continua funcionando. Quando o tiroteio é preciso, as armas são satisfatórias e as missões sabem alternar o ritmo, não existe tanta necessidade de transformar tudo em uma experiência completamente diferente.
Missões e ritmo da campanha
Uma das mudanças mais positivas em relação ao capítulo anterior está na estrutura das missões. Modern Warfare 4 volta a apostar em uma campanha predominantemente linear, com objetivos claros e uma progressão que acompanha os acontecimentos da história.
Pode parecer uma escolha conservadora, mas funciona. Nem todo jogo precisa oferecer mapas enormes ou liberdade constante. Uma das maiores qualidades de Call of Duty sempre foi a capacidade de colocar o jogador em situações específicas e conduzi-lo por uma sequência bem planejada de exploração, tiroteios e momentos cinematográficos.

Aqui, as missões têm objetivos que fazem sentido dentro da narrativa. Em vez de interromper o avanço para preencher o mapa com tarefas secundárias, a campanha mantém o foco no que está acontecendo. Isso ajuda a preservar a urgência e evita que a experiência perca força no meio do caminho.
Também existe uma boa variedade de situações. O jogador participa de operações furtivas, invasões a instalações, perseguições e batalhas em larga escala. Em outros momentos, é necessário avançar com mais cautela para evitar colocar civis em perigo. Nem todas essas ideias são novas, mas a alternância entre elas ajuda a manter a campanha interessante.
A direção cinematográfica continua sendo um dos pontos fortes da Infinity Ward. As perseguições, as explosões e os cenários sendo destruídos dão escala aos acontecimentos, mas o mérito está em não deixar toda essa ação restrita às cenas de corte. Na maior parte do tempo, o jogador participa diretamente do caos, o que torna esses momentos mais envolventes.

Isso não significa que todas as missões surpreendam. Algumas situações seguem caminhos bastante previsíveis, e falta aquela sequência que realmente muda as expectativas sobre o que a campanha pode oferecer. Boa parte da experiência se apoia em ideias que já vimos antes.
Ainda assim, prefiro uma campanha que sabe executar bem suas propostas a outra que tenta inovar a qualquer custo. Modern Warfare 4 não reinventa a estrutura da franquia, mas encontra um ritmo consistente e consegue manter o interesse até o fim.
Gráficos, ambientação e imersão
Visualmente, Modern Warfare 4 mantém o padrão esperado de uma produção desse porte. Os cenários apresentam um bom nível de detalhe, os personagens têm expressões convincentes e as sequências de destruição ajudam a transmitir a escala dos conflitos.
A variedade de ambientes também contribui para a experiência. A campanha passa por áreas urbanas, instalações militares, regiões abertas e cenários cobertos de neve, evitando que as missões pareçam acontecer sempre nos mesmos lugares. Em algumas batalhas, a destruição altera o ambiente ao redor do jogador e ajuda a dar mais peso aos confrontos.
A direção das cenas de ação continua sendo um dos pontos fortes do estúdio. Perseguições em alta velocidade, fugas e invasões são bem executadas, criando situações que mantêm a sensação de urgência sem depender apenas de cenas não interativas.

Os momentos mais contidos também funcionam. Algumas missões exigem cuidado ao atravessar ambientes escuros, enquanto outras usam a presença de civis para aumentar a tensão. Nessas situações, a ambientação não depende de grandes explosões, mas da maneira como o cenário e os riscos influenciam as decisões do jogador.
Apesar disso, alguns problemas de apresentação chamam a atenção. Em determinadas áreas, a vegetação aparece de forma perceptível durante a movimentação, o que destoa do restante do visual. Não chega a comprometer a campanha, mas é um tipo de falha que poderia ter sido corrigido em uma produção com esse nível de acabamento.
A iluminação também apresenta problemas. Há trechos em que a escuridão dificulta a identificação de caminhos e inimigos, tornando alguns confrontos mais confusos do que deveriam ser. Entendo a intenção de transmitir a dificuldade de lutar em condições desfavoráveis, mas nem sempre o resultado funciona bem durante a partida.
Ambientes escuros podem contribuir bastante para a atmosfera de uma missão, desde que ainda seja possível entender o que está acontecendo. Quando o jogador precisa gastar mais tempo tentando enxergar o cenário do que reagindo às ameaças, a tensão acaba dando lugar à frustração.

Esses problemas não aparecem em toda a campanha, e o conjunto visual continua sendo competente. Ainda assim, são detalhes que mereciam mais atenção para deixar a experiência consistente do começo ao fim.
Personagens e desenvolvimento emocional
O que dá força à campanha não é apenas a quantidade de sequências de ação, mas a maneira como os acontecimentos afetam os personagens. Nesse aspecto, o contraste entre Price e Park é um dos elementos mais interessantes do jogo.
Price carrega as consequências dos acontecimentos anteriores, principalmente a morte de Soap e o rompimento com seus antigos companheiros. Sua busca por Makarov influencia praticamente todas as suas decisões, e fica cada vez mais difícil separar o que ele faz por necessidade do que faz por vingança.
Park representa o outro lado dessa história. Ele ainda está aprendendo a lidar com a guerra e precisa enfrentar situações para as quais não teve tempo de se preparar. Seu desenvolvimento não depende de transformá-lo em um herói invencível, mas de mostrar como ele reage diante do perigo e tenta proteger as pessoas ao seu redor.

Essa diferença ajuda a dar mais profundidade à narrativa. Price tem experiência suficiente para saber o custo de suas ações, mas parece cada vez menos disposto a aceitar os próprios limites. Park ainda está tentando entender como sobreviver sem abrir mão de tudo aquilo em que acredita.
Os diálogos opcionais também ajudam a desenvolver os personagens secundários. Em determinados momentos, é possível conversar com os companheiros e conhecer um pouco mais sobre suas experiências. São interações breves e que não alteram o rumo da história, mas funcionam como pausas entre as missões e ajudam a tornar o grupo mais próximo do jogador.
O problema é que esse cuidado não se estende a todo o elenco. Alguns antagonistas precisavam de mais tempo em cena, enquanto certas relações são resolvidas rapidamente demais. A campanha tem bastante coisa para contar, mas nem sempre consegue desenvolver todas as ideias que apresenta.

Ainda assim, os personagens são parte fundamental do que faz essa campanha funcionar. Sem o conflito de Price e a perspectiva de Park, o jogo correria o risco de se tornar apenas uma sucessão de operações militares bem produzidas. São as histórias pessoais que dão mais significado às missões e fazem com que os acontecimentos tenham consequências além do campo de batalha.
Pontos negativos
Apesar dos acertos, Modern Warfare 4 está longe de ser uma campanha perfeita. O principal problema é que boa parte de suas qualidades vem do aprimoramento de ideias que a franquia já conhece muito bem. O combate funciona, as missões são variadas e a narrativa mantém o interesse, mas faltam momentos capazes de surpreender de verdade.
A história também deixa algumas oportunidades pelo caminho. Makarov continua sendo uma figura importante, mas seu desenvolvimento não está à altura do que o personagem representa para a série. Archer amplia o conflito, porém a divisão da atenção entre os dois acaba prejudicando o desenvolvimento dos antagonistas.
Os confrontos finais contra os chefes são outra decepção. Depois de tantas situações que colocam os protagonistas em perigo, os embates acabam sendo curtos e pouco desafiadores. A conclusão da história funciona, mas faltou dar aos confrontos uma importância à altura dos acontecimentos que os antecedem.

O combate corpo a corpo também deixa a sensação de que poderia oferecer mais. A mecânica funciona nas situações em que aparece, mas é simples e pouco explorada. É uma adição válida, embora não chegue a ter um impacto significativo na experiência.
Há ainda os problemas pontuais de iluminação e apresentação visual. A dificuldade para enxergar em determinadas áreas pode atrapalhar alguns confrontos, enquanto as falhas na vegetação destoam do restante do trabalho gráfico. Nada disso compromete a campanha inteira, mas são aspectos que poderiam ter recebido mais atenção.
Por fim, a familiaridade de algumas sequências pode incomodar quem esperava mudanças maiores. A campanha recupera características importantes da franquia, mas faz isso sem arriscar muito. Para quem procura uma experiência radicalmente diferente, talvez falte novidade.
Essas limitações não apagam os méritos do jogo. A Infinity Ward demonstra que sabe trabalhar com os pontos fortes de Call of Duty, mesmo que nem todas as ideias sejam desenvolvidas até onde poderiam chegar.
Jogo analisado e executado em um PlayStation 5 Pro





